Uma visita! Uma visita! Isadora chegou. Compramos um colchão novo, gigante; pedi que ninguém o tirasse do plástico. Ele tem uma cor rosa muito delicada e as flores estampadas são quase imperceptíveis - achei tão começo do século XIX! Peguei um pincel atômico e escrevi em letra de mão na embalagem: “Colchões Jane Austen”. Fiquei rindo sozinha, imaginando a cara de Isadora. Será meu depois que ela for embora, mas enquanto ela estiver aqui continuarei dormindo naquela fina camada de espuma e pano onde é possível sentir o estrado entrar nas minhas costelas durante a noite.
Uma semana é muito pouco, já falei para ela. Mesmo que a cidade seja pequena, mesmo que seja inverno e as férias de julho estejam cada vez menores, o que ela ganha voltando tão cedo para Minas Gerais? Temos tanto a conversar. E o pouco de tempo que eu tinha com ela seria ainda atravessado pelo emprego que consegui na loja, justo agora que eu tinha com quem gastá-lo.
Eu adoro a inacessibilidade de Isadora, como ela é capaz de falar durante horas sem dizer por um segundo como está, o que a ameaça, pelo o que é apaixonada, onde mente para si mesma. É como se ela pensasse que ninguém realmente ligaria para os problemas dela, então muito menos ela liga!
“Aaaah! Colchões Jane Austen! Que perfeito! Eu preciso tirar uma foto!”
Ela adorou. Eu adorei que ela adorou. Ficamos uns vinte minutos com ele em pé, fazendo pose e tirando fotos. Depois meu pai veio, arrumou a cama dela, a pizza que pedi só para nós duas chegou e fechei a porta. Sentamos e cortei a tampa da pizza ao meio para usarmos como prato e não ter louça para lavar depois. As coisas dela espalhadas pelo quarto, impossibilitando que eu fosse até o computador: era a visão do paraíso.
“Você não se incomoda se eu deixar tudo aqui?”
“Claro que não! O ano inteiro isso aqui fica organizado e eu fico entediada...”, falei de boca cheia.
“Você ainda não fez nenhum amigo nessa cidade?”
“Não. E eu já não acho que seja mais a cidade mesmo, o problema está em mim. Problema não, né... foi a solução que eu encontrei para não enlouquecer cada vez que mudamos. Eu sei que meu pai nunca vai poder ter uma vida normal e morar num mesmo lugar durante muitos anos, mas se ao menos ele fosse transferido para um outro estado... Eu não agüento mais Santa Catarina. Quando eu morei em Lages, fiz a Mônica de amiga. Em Chapecó, ninguém. Em Florianópolis, você, que mora em Minas Gerais!... Em Laguna eu fiz amizade com os botos do lugar! Eu ficava sentada na praia vendo os pescadores fazendo aquela pesca tradicional em que os botos ajudam a empurrar os peixes para a rede. E só. Em Caçador ninguém; em Concórdia a Júlia, em São Francisco do Sul... o Pedro - mas o Pedro não vale porque a gente ficou e estragou tudo e eu nem falo mais com ele. Enfim, amiga. Agora estou nessa metrópole chamada Porto Belo, e essa angústia, essa incapacidade de não saber que rumo a minha vida vai tomar, e saber que não me é permitido construir coisas, e que eu não estou mais aqui daqui alguns meses. Então essa praia maravilhosa que você vê aí pela janela... não existe.”
“É lindo aqui.”
“É lindo se você não vivesse nesse estado de emergência.”
III.
Nem ela nem eu acreditamos quando aquele sol e aquele calor infernal abriu-se numa terça feira de inverno, justo no dia da minha folga, justo na presença dela. Corremos até a praia, e a praia era todinha nossa. Eu imediatamente estiquei a canga e me deitei, mas Isadora entrou no mar e estava em êxtase.
“Olha isso, Lumi! Parece uma lagoa! E só tem a gente na praia!”
Em momentos de muita alegria como aquele eu fico muito contemplativa, silenciosa; aí as pessoas me perguntam se estou triste nesses momentos em que acredito estar feliz, e nunca sei o que responder. Quando Isadora saiu da água e veio correndo sentar-se ao meu lado, não parava de falar.
“Eu to me coçando inteira.”
“É água viva então.”
“O que?!”
“Sim, mas são pequenininhas, olha ali na areia. Elas não chegam a queimar.”
Ao ver a Ilha de Porto Belo mais ao fundo, a claridade da água, o céu azul com longas pinceladas brancas e imóveis em seu mais alto, não pude deixar de suspirar.
“Isso foi um presente de Deus.”
“Deus não existe”, disse Isadora coçando a panturrilha.
IV.
No dia seguinte eu trabalhei o dia inteiro e, como combinado, Isadora passou na loja no fim de tarde para irmos juntas ao mercado escolher o que jantar, já que minha mãe e meu pai tiveram que viajar de última hora e só voltariam no sábado. Compramos pães, queijos e todo tipo de coisa simples e engordativa. Enquanto eu colocava as fatias de pão na torradeira, ela ia arrumando a mesa.
“Adoro isso, olha. Nunca dá para saber a hora que eles vão pular. Isso é uma invenção genial, é lúdico.”
Lúdico mesmo para ela foi quando cortamos grossas fatias de queijo colonial e espetamos no garfo para ir dourando direto na chama do fogão.
“Que maravilha, Lumi. Não dá para fazer com qualquer queijo, né? Uma mussarela aqui derretia fácil, não dá para comer no garfo. Onde é que eu compro um queijo desses?”
“Bom, você é de Minas né, Isadora?! Lá deve ter. Se não, algo parecido. E toma cuidado para não queimar a língua com o garfo.”
Não teve jeito, ela acabou queimando o lábio, ficou rindo de dor. Até desistiu, foi fazer um sanduíche. Sentamos, e só quando sentei percebi como meu corpo estava moído, tudo o que eu precisava era de um banho e cama. Ela notou que eu fiquei muda de uma hora para outra. Estava cansada, e sorri falso para não dar a falsa impressão de que estava cansada dela.
V.
Com que susto na quinta-feira eu voltei do trabalho e andando pelo corredor até meu quarto ouvi a Isadora chorando. Aí percebi que ela estava falando com alguém, e meu coração já estava na boca. Quando entrei no quarto vi que ela estava ao telefone, vermelha, desesperada, cheia de rios no rosto.
“Mãe, é a segunda vez que você faz isso comigo... não! não!... se fosse a Pâmela! A Pâmela aquela vez que achou o Taz na saída do colégio, você ficou com ele na mesma hora! Foi só a Pâmela pedir que você até montou a cama para o gato na sala... eu não acredito! eu não acredito!...tchau... tchau... não tem mais o que conversar, você já se livrou dele mesmo!... chega, ta me ouvindo? tchau!”
Isadora caiu na cama com as mãos no rosto, fazendo um grunhido. Eu não sabia o que dizer. Desci correndo para pegar um copo dágua e quando voltei ela estava sentada com a cabeça baixa, ainda chorando muito. Agachei, estendi o copo.
“Por favor, me conte o que aconteceu. Eu não sei o que fazer!”
“Minha mãe... minha mãe deu embora meu cacho... um cachorrinho que eu achei na rua todo cheio de sarna... bandonado... tremendo de frio...”
Ela soluçava muito e mal pronunciava as palavras. Mal olhava para mim, perdida em sua casa enquanto me explicava.
“Eu cuide-e-i dele por...três... meses... passava remé... toda semana... ele se... curou... minha mãe não gostava dele... eu sabia... eu até falei... ‘não vai dar embora o cachorro quando eu estiver fora’... eu sabia.. eu sabia...”
“Isadora, eu não conheço sua mãe, mas ela deve ter tido um motivo. Não?”
“Não! Você não conhece mesmo... ela fez de propósito... se fosse com a minha irmã ela jamais teria feito isso! Jamais!”
Eu achei que precisava ficar quieta. E nunca achei que ficaria viva para ver Isadora chorar.
“Se você quiser ir embora antes do tempo, eu entenderei.”
“Eu... acho... que eu prefiro... não vai dar para ficar aqui... fingindo que na-a-da aconteceu.”
VI.
No dia seguinte fomos à rodoviária de manhã para adiantar a passagem dela. Conseguimos a viagem naquela mesma noite.
De noite, quando voltei do trabalho, as coisas de Isadora já estavam prontas e fomos andando no lusco-fusco até a rodoviária, em silêncio. Ela olhava para a paisagem com o cenho franzido, respondia em monossílabos tudo o que eu tentava dizer. Me pediu desculpas, imagina.
Enquanto aguardávamos o ônibus, em pé, no meio do movimento e do barulho, Isadora apontou para o céu.
“Olha, uma pipa.”
Ficamos admiradas de ver aquela pipa desvairada durante a noite. Ela continuou, com um tom bem diferente, muito vívido.
“Minha casa parece que tem um imã para pipas. Toda pipa cai lá, é impressionante. O muro está até mole de tanto que os meninos sobem nele para catar aquelas desgraçadas.”
Eu comecei a me contorcer de tanto rir, não sei porquê. O tom que a Isadora deu foi o melhor, foi muito cansado e indignado, e ela acabou rindo com minha risada. O ônibus chegou e fomos suspirando deixar a mala na parte de baixo.
“Não sei onde estarei morando daqui seis meses; mas, se puder, venha. Venha, venha, venha.”
“Pode deixar, Lumi.”
Quando ela disse isso, preocupada em subir no ônibus, eu sabia que aquela frase continha o convite de que quando eu quisesse poderia ir para a casa dela em Minas também. Seria redundante se ela dissesse isso. Ela fez um tchauzinho da janela quando o ônibus deu marcha ré. Eu queria dizer que ela era uma pessoa maravilhosa, mas fiquei quieta. Ela é maravilhosa porque não sabe disso.