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CINEMA

09/08/2010

A Single Man

A estréia de Tom Ford no cinema

Por Luis Fabiano Teixeira

Sempre admirei o trabalho do estilista e agora diretor de cinema Tom Ford pela sua ousadia, senso estético refinado e, principalmente, pela sua “fome de beleza” em tudo. Assim que soube que ele dirigiria A Single Man (me recuso a usar o título em português), não levei muito a sério. Tinha lido, há uns três anos, o livro homônimo de Christopher Isherwood, encontrado por acaso num sebo, e achei a narrativa terrivelmente lenta, embora o assunto me interessasse bastante. Era esperar pra ver, mas eu tinha quase certeza de que nem toda a sua criatividade o salvaria de um fiasco. Mas, para minha surpresa, ele não só se saiu um ótimo diretor, como o filme se revelou melhor que o livro. Sei que esse tipo de comparação é sempre injusto, mas não vamos nos ater a esse detalhe por enquanto.

 

                 Eduard Grau/Divulgação

 

Na época do lançamento, que não faz tanto tempo assim, me recordo de ter lido críticas bastante mornas. Algumas pessoas reconhecendo apenas o ótimo aspecto visual do filme e alguns críticos muito impacientes com a lentidão da trama. No entanto, todos concordaram numa coisa, a péssima tradução brasileira para o título. Um Homem Solitário foi rebatizado aqui de “Direito de Amar”. Em Portugal também não foi diferente, os lusos chamaram o filme de “Um Homem Singular”. Nenhum dos dois reflete a essência da história, a solidão imposta pela perda de um amor (no caso, entre homossexuais), apenas serviu para reafirmar o preconceito diante do assunto. Broncas à parte, vamos ao roteiro que é de uma simplicidade absurda: um dia na vida do cinquentão George (interpretado pelo excelente ator inglês Colin Firfh), um professor de literatura de uma universidade da Califórnia, que passa meses sofrendo pela perda do companheiro, morto num terrível acidente de carro, em 1962. O filme vai o tempo todo fazer essa ponte entre passado e presente, entre os momentos bacanas que os dois viveram juntos e o estrago que a ausência de um causa na vida do outro. O diferencial fica por conta da interpretação brilhante de Firfh que não precisou de nenhum artifício extra para tornar crível o seu personagem. É um dos melhores trabalhos de interpretação já vistos nos últimos tempos, sem dúvida. Todo focado no lado psicológico, mas sem exageros. E o mais curioso: num filme sem uma única curva dramática. Totalmente linear. Até bonito demais. Um editorial de moda em movimento.

 

                 Eduard Grau/Divulgação

 

O verbal é radicalmente superado pela imagem. Começando pela fotografia que, como era de se esperar, é extremamente linda. Os figurinos, que foram muito aguardados também, são impecáveis. Os ternos, por exemplo, são todos bem cortados, enquanto os óculos e suéters no melhor estilo geek dão um charme todo especial ao vestuário masculino. Há ainda referências visuais à atriz Brigitte Bardot e uma trilha sonora pra lá de sofisticada. E quem achava que Tom Ford esqueceria o seu lado “hot”, que o tornou mundialmente conhecido, se enganou também. A aparição relâmpago do modelo Jon Kotajarena, interpretando Carlos, um espanhol que por um momento tenta seduzir George, não deixa dúvidas de que o diretor abriria espaço também para provocar a libido de meninos e meninas. Tudo muito cool, poético e, principalmente, delicado.

 

               Eduard Grau/Divulgação

 

Podemos abordar duas questões diferentes: as pessoas estão abertas a uma experiência mais contemplativa, a partir de um filme que é essencialmente “cult”, no meio de tantos e imbatíveis blockbusters? Queria Tom Ford dar um recado à comunidade gay para que se pense menos em relações flutuantes e mais em afeto, mas sem se parecer panfletário? Eu mesmo só consegui pensar numa coisa, na forma como George encara a sua finitude diante do espelho, ora com coragem, ora pateticamente hesitante, como convém a pessoas frágeis. Ou simplesmente na ideia de morrer. Por amor.

 

Confira o trailer:

 

 

 

 

 

 

 

               

 


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