CINEMA

21/02/2011

A Origem

Christopher Nolan mexe com nosso subconsciente

Por Rodrigo Ramos

Quem não se lembra de Amnésia? O longa foi realmente um baque no cinema, por causa do seu formato único, demonstrando certa insanidade e uma grande linearidade dentro da mente de Christopher Nolan ao montar uma trama totalmente não linear. O longa estrelado por Guy Pearce e Carrie-Anne Moss revelou para o mundo inteiro o talento de Christopher, tanto como diretor assim como roteirista, ao lado do seu irmão Jonathan Nolan. De lá pra cá, a indústria cinematográfica foi se moldando, evoluindo e Nolan continuou. Sua maior marca foi, sem dúvida, Batman – O Cavaleiro das Trevas, a obra definitiva do homem morcego nas telonas. Sua obra prima. A questão é: o que fazer depois de seu maior filme?

 

                  Warner Bros/Divulgação



Christopher criou um roteiro próprio, sem a colaboração de seu irmão desta vez. Uma ideia que já existia há um bom tempo, mas que o diretor não tinha a experiência nem o investimento necessário para a obra. Com o sucesso estrondoso de O Cavaleiro das Trevas, uma das 10 maiores bilheterias de todos os tempos, Nolan conseguiu o que queria. E criou A Origem (Inception, 2010), um verdadeiro estupro mental.


As criações de Nolan costumam mexer com nosso subconsciente. Suas ideias conseguem penetrar em nossas mentes e nos deixar incomodados e admirados. Amnésia, O Grande Truque, Insônia, até mesmo O Cavaleiro das Trevas, mostravam uma capacidade de confundir nossas presunções. Nunca seguindo o caminho mais fácil e óbvio, Nolan faz de A Origem sua maior experiência com a imaginação. O longa é uma piração sem precedentes. Muitos já dizem que Inception é um divisor de águas no cinema. Sinceramente? Esta informação está incorreta. Por mais que a fita seja original em alguns aspectos e sua narrativa  um tanto confusa e complexa, ela não é um Matrix, por exemplo. Já houve esta comparação entre ambas as obras, mas Matrix veio em um momento diferente e também já esbarro aqui em uma polêmica: a ficção de 1999 é melhor do que a obra de Nolan.

 

                Warner Bros/Divulgação



A trama traz Dom Cobb (Leonardo DiCaprio), um habilidoso ladrão. Ele tem a habilidade de extrair ideias de dentro das mentes das pessoas em seus sonhos, enquanto elas dormem. Este é o momento em que a mente se encontra num estado mais vulnerável e ele aproveita para roubar o que o seu empregador lhe requisitar. Cobb e seu colega, Arthur (Joseph Gordon-Levitt), são contratados para um trabalho um pouco diferente. Ao invés de roubar, eles devem inserir uma ideia dentro da mente de um homem do meio corporativo. Parecendo impossível à primeira vista, Cobb se dispõe totalmente no plano, pois se tiver sucesso, este será seu último trabalho e poderá voltar para seus amados filhos, dos quais ele não vê desde que sua mulher, Mal (Marion Cotillard) faleceu. Para conseguir criar a cena do crime perfeita, Cobb recruta uma grande equipe, entre eles uma arquiteta, Ariadne (Ellen Page).
 

                    Warner Bros/Divulgação


Chris Nolan montou um filme que em muitos momentos fala muito, mas diz pouco. Ou seja, se torna um pouco verborrágico. Mas as intenções do diretor são nobres. Ou não. O roteirista monta uma história que mostra uma faceta mais do que pretensiosa de sua pessoa. Alguns diálogos soam desnecessários, talvez até mesmo para ajudar os que não conseguem entender muito bem filmes mais complexos (hoje em dia ainda tem gente que não entendeu Amnésia), Nolan mastiga um pouco as coisas. Entretanto, ele não deixa de imprimir muita qualidade em outras ocasiões dentro da fita.

A Origem é uma viagem dentro da mente. Cada um dos personagens são traduzidos com algum problema existencial, particular, amoroso, afetuoso, entre outros sentimentos. Espera, esta é a palavra chave: sentimento. Mesmo sendo um blockbuster, o diretor de Batman Begins não cria apenas labirintos para que nossa mente consiga resolvê-los, mas explora também as emoções. Afinal, sem elas, o filme não faria muito sentido. Até mesmo porque a falecida esposa do protagonista o persegue durante o longa inteiro e a única razão para ele estar fazendo aquele trabalho é para poder retornar à sua família. Todos têm um porquê. E isso torna tudo mais interessante, pois esta é a conexão com o espectador.

 

                  Warner Bros/Divulgação

 

Nolan consegue criar muita tensão e agonia em quem está sentado na sala escura. Novamente, o diretor entrega um trabalho competente e que segura o espectador (o clímax tem cerca de 45 minutos!), não insultando a inteligência de ninguém. O roteiro, apesar de ter aquele probleminha que citei, de se tornar um tanto quanto verborrágico, consegue se sustentar. São várias peças e conforme o filme se discorre e vamos passando nas camadas de sonho, a realidade parece cada vez mais distante. Mas no final, tudo faz sentido. No meio de muita destruição e caos, Nolan se acha no meio de tantas quebras e coloca um ponto final no lugar certo. Tudo orquestrado brilhantemente pela trilha sonora eficiente de Hans Zimmer que de tão forte e presencial, se torna um personagem dentro da trama. A música é um agente que faz uma grande diferença.

 

                  Warner Bros/Divulgação



Ainda nos setores técnicos, A Origem mostra uma competência fantástica. A fotografia é belíssima. Imagens embasbacantes são mostradas na tela. Os efeitos especiais são de primeira categoria. Há várias cenas de ação de irar o fôlego, principalmente no clímax do longa. Mas a cena do corredor onde Joseph Gordon-Levitt está brigando com os seguranças do hotel é extraordinária. Uma das melhores cenas de ação de todos os tempos. Nem tanto pela quantidade de adrenalina, mas pela forma com a qual ela foi feita.

 

                   Warner Bros/Divulgação


Além dos termos técnicos, A Origem também se sustenta pelas ótimas atuações. Michael Caine passa quase despercebido, pois seu papel é pequeno. Quem se sobressai e surpreende são Ellen Page e Joseph Gordon-Levitt. Ela mostra que pode levar um papel sério nas costas, sem recorrer à piadinhas, como por exemplo em Juno. Já Gordon-Levitt, também sai do seu lugar seguro – e que faz muito bem, diga-se de passagem – e mostra que o rapaz sensível de (500) Dias Com Ela é um ator que segura bem um personagem sisudo e mostra boa parte de seu talento ainda não explorado anteriormente. Leonardo DiCaprio é só elogios também. Já estamos acostumados a ver ótimas performances do ator e em A Origem, ele não decepciona e mostra porque é o queridinho de Scorsese. Marion Cotillard não está presente o tempo todo, mas quando aparece, dá reviravoltas na trama. Sua interpretação é de suma importância e a vencedora do Oscar por Piaf – Um Hino Ao Amor transpõem muitas emoções, tanto raiva, amor e tristeza, tudo na medida certa. Alias, a música de Edith Piaf, “Non, je ne regrette rien” que toca durante o longa, é uma homenagem à personagem de Cotillard que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz.

 

                    Warner Bros/Divulgação



Este texto parece extenso demais, mas é proporcional às dimensões dos longas de Nolan. A Origem não é sua obra prima. Batman – O Cavaleiro das Trevas ainda é imbatível. Mas Inception só vem para afirmar que o diretor é um profissional de vários recursos. Cada obra sua possui uma peculiaridade e em todas temos uma certeza: um grande filme. Para um blockbuster, A Origem reserva muitos elementos que vão além de um mero arrasa quarteirão de verão estadunidense. Já dei muitos motivos para você assisti-lo, então é desnecessário relembrar todos. Só vale ressaltar que o longa é uma das melhores coisas deste meio de ano, que nos proporcionou poucos filmes, mas muitos produtos. Nolan trouxe um pouco de genialidade à temporada de grandes produções. Amém!

Ps: De preferência, experimente o longa numa sala IMAX. Tudo é mais fascinante com a tela gigante, proporcionando um fascínio maior ainda nas incríveis cenas criadas por Nolan. Confira:

 

 

 

 

A Origem
Inception
EUA / Inglaterra, 2010 - 148 min
Ação / Ficção / Suspense

Direção:
Christopher Nolan
Roteiro:
Christopher Nolan
Elenco:
Leonardo DiCaprio, Ken Watanabe, Joseph Gordon-Levitt, Marion Cotillard, Ellen Bage, Tom Hardy, Cillian Murphy, Tom Berenger, Michael Caine, Pete Postlethwaite


blog comments powered by Disqus


2012

Janeiro
Fevereiro

2011

Janeiro
Fevereiro
Março
Abril
Maio
Junho
Julho
Agosto
Setembro
Outubro
Novembro
Dezembro

2010

Março
Abril
Maio
Junho
Julho
Agosto
Setembro
Outubro
Novembro
Dezembro

Mi casa, su casa: como receber amigos em uma festa sem stress

Culture-se dá as dicas de como fazer o seu open house de uma forma prática e simples

'Gabriel Querubim e os Guardiões dos Sonhos' é uma aventura repleta de mistérios e fantasias

Livro foi inspirado na música Aquarela, composição de Toquinho e Vinicius

Revista Dansk celebra o décimo aniversário de moda, arte e cultura

Para as capas, a inspiração veio do impressionismo, com a reinterpretaçãoo de Freja Beha por Christian Brylle e de Juliane Gruner por Aitken Jolly

Christian Dior: Haute Couture Spring/Summer 2012

Bill Gaytten mostrou uma belíssima coleção Couture que deixaria Monsieur Dior bastante orgulhoso

O Rock no Brasil não morreu! Hoje ele vem do Ceará! É Rock, barão!

Daniel Groove e O Sonso mostram que o gênero continua vivo!




Política de Privacidade | Sobre | Anuncie | Contato | Copyright © 2012 culture-se - Todos os Direitos Reservados.