“Antigos e Soltos – Poemas e Prosas da Pasta Rosa”
Por Enzo Potel
É sem dúvida o projeto gráfico mais impressionante que um poeta brasileiro já recebeu: “Antigos e Soltos: Poemas e Prosas da Pasta Rosa” (Instituto Moreira Salles, 2008), de Ana Cristina César, organizado por Viviana Bosi. Um livro grande e grosso como aquelas bíblias que ficam abertas na casa das nossas avós. Com exceção de que as páginas rosas contém fac-símiles de escritos, reescritos, rabiscados, datilografados, xerocados, bilhetes e cartas que a autora guardava em uma pasta sanfonada.
Num primeiro momento, Viviana Bosi deixa muito clara a idéia dessa compilação ao leitor: “a possibilidade, hoje tão rara, de abrir para publicação os bastidores da criação escrita, para que na reprodução dos fac-símiles a proximidade quase imediata do manuscrito com a mão que o escreveu possa ser apreendida pelo leitor.” Por isso, muitos textos aparentemente idênticos se repetem páginas a fio, em vários originais, com pequenas ou grandes alterações.
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Este garimpo literário está dividido em sete partes: Prontos mas rejeitados, Inacabados, Inacabados 2, Rascunhos/ Primeiras versões, Cópias, Antigos & Soltos e O Livro. Se durante a leitura desta obra o leitor se cansar ou se decepcionar, levando em consideração de que desta compilação possivelmente a autora jamais teria publicado alguns (ou muitos) textos, levará um susto e uma justificativa ao pousar na ultima parte, O Livro. Essa parte final é assumidamente mais densa, mais desconexa e os poemas extremamente longos propõem um conto, dividido em nove partes. Em um pequeno anúncio antes de começar este ninho textual, a autora deixa claro: “dói menos um resto de enredo, os pensamentos do enredo, ou o enredo apenas se pensando. Ao que cumpre seguir com uma certa decepção, certo horror ao diluído. Para travar de vez em palavra e meia o signo completo de todo o conto.”
Ao optar por uma linguagem diluída, assume-se que poesia é uma mensagem líquida, que toma forma no corpo do leitor. Ao escrever uma vivência ela se deforma e revivê-la (no papel) não é mais um suplício. Mas diluindo extremamente como faz a autora, corre o risco de perder em qualidade emocional, e justamente no fac-símile ao lado, observamos que Ana anotou, à mão, críticas (ou direcionamento?) do que escreveu (ou do que pretendia escrever): “niilista, vazio, arbitrário, não diz nada, um certo mau gosto, cacoete, “literário”, música ao longe derretida, imagética bilu bilu”.
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No meio deste capítulo, em duas páginas, uma única frase em letra de punho: “Pelo menos no papel eu assumo a minha esquizofrenia. E a vossa.”
A criatividade de Ana C. explode em técnicas jamais vistas e transcende expectativas – inclusive a de se fazer entendida. Para Ana, literatura não é documento, não é autobiografia, “a noção de sujeito é puramente gramatical”. Mesmo assim deixa claro o desejo de que não quer ser “apenas uma personalidade, mas sobretudo uma Personalidade (que são as únicas personalidades que ganham – eu não disse “merecem” – biografias). MERA QUESTÃO DE MAIUSCULAS OU MINUSCULAS... E assim torturada a minúscula baronesa de macau imita seu cônjuge e rola pelo chão sob olhares espantados”.
Ana Cristina César tinha horror aos “psicólogos da literatura” porque ela justamente foi uma grande psicóloga da literatura, se especializou nisso a vida inteira e não sabemos por que esse espelho lhe incomodava tanto. Não aceitava que os outros fizessem interpretações biográficas de seus poemas porque ela, justamente, era obcecada por sua própria vida.
“Fraturo as mãos. Me reúno com casal em lugar ermo. Máquina de escrever é peça irônica entre bagagens. "Faz vinte dias não olho o espelho" me diz ela. "Faz vinte dias não escrevo palavra" digo-lhe em revide. Estaríamos a falar a mesma coisa? Enquanto isso eu e ele discutimos a grandeza dos poetas. Entre um pessoa e outro me aconselha estilo enxuto. Estaria a falar em pouca lágrima? Faço pouca fé.”
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Grande esfinge na literatura brasileira, fragmentária, non-sense, assumidamente apaixonada por Pessoa e Woolf em seus textos, mas, ao contrário deles, Ana C. não estava preocupada em trazer luz ou produzir uma narrativa; sua preocupação maior é levar o leitor a um estado. A própria dicção das palavras escolhidas irá influir nisso e as conexões que elas fazem com outras palavras (não necessariamente com o conteúdo destas) podem ser negociadas durante a escrita, criando os destinos sempre inexplicáveis nos textos de Ana.
Muito comparada à Sylvia Plath na impossibilidade decifratória de seus poemas e no final que concederam às próprias vidas (ambas se suicidaram), Ana comenta em um ensaio sobre a autora americana: “No poema de Plath a linguagem é algo como valor absoluto. A poeta encontra as palavras no caminho. As palavras são o outro lado da realidade, ingovernáveis, ásperas. Será por isso que elas não designam, não colaboram com o autor nem obedecem à ele?”
A genialidade de Ana Cristina César não é fácil, nunca será fácil. Ela não se evidencia, porque o autor e a mensagem não estão assumidamente preocupados em se fazer presentes no poema. Mas fica aquele pulsar inegável, aquela maturidade incontestável de alguém que alcançou a si próprio. Mesmo que sua própria sombra fosse um impiedoso crítico literário, dizendo que ela estava (e que na verdade queria estar) longe de si mesma.