TEATRO

30/08/2010

A vida como ela é

Drama de Nelson Rodrigues em Curitiba

Por Rodrigo Ramos

Certa vez estava em meu Twitter e eu vi na home page uma tuitada muito inteligente. “O cinema 3D já existe há muito tempo, é o teatro”. Esta citação, de autor que desconheço, é puramente verdadeira. A sensação de estar no escuro completo antes de iniciar uma peça, é um sentimento revigorante. Ver as pessoas no palco, praticamente dialogando com você, expressando aqueles sentimentos diante dos seus olhos, naquele momento, é algo soberbo. O teatro me conquistou. Ou melhor, Nelson Rodrigues o fez.


Nesta noite de 29 de agosto, no Auditório Glauco Flores de Sá Brito, o miniauditório do Teatro Guaira em Curitiba, presenciei a encenação de uma das maiores obras literárias da vida do jornalista, cronista, escritor, e por ai afora: A Vida Como Ela É. A obra de Rodrigues já foi utilizada de várias formas, inclusive como uma série de televisão exibida pela Rede Globo em 1996. São vários contos sobre o cotidiano das pessoas, traduzindo através do cômico e da tragédia, detalhes de nossas vidas privadas.

 

               Elenize Dezgeniski

 

O Grupo Delírio Companhia de Teatro é quem dá vida em mais uma adaptação da obra para os palcos. Com direção e adaptação de Edson Bueno, A Vida Como Ela É proporciona várias sensações ao espectador. Da mesma forma que Rodrigues gostaria, a apresentação consegue chocar. Não é demasiadamente violenta nem tão explícita, porém as verdades da vida podem simplesmente incomodar os desavisados. O elenco da peça é excelente e está harmônico em cena. É incrível como um complementa perfeitamente ao outro. Sem contar as mudanças de personalidade quando precisam interpretar outro personagem, que é o caso de todos ali presentes, exceto Tiago Luz, que só representa Roberto.

 

               Elenize Dezgeniski


As histórias giram em torno da morte e de todo o jeito de Nelson Rodrigues. Quem está no palco fala diretamente com a platéia, ressaltando todos os adjetivos que davam para o romancista. Fora chamado de reacionário, tarado, agressor, entre outros. A peça não procura desmentir, só reafirma estas condições de Rodrigues. O texto é rico por conseguir mesclar tantos contos e terminar numa só ponta. O início parece confuso, são muitos personagens, muitas vozes, muitas historinhas. Mas é possível se encontrar aos poucos. A ambientação no palco não consegue ser muito vasta, contudo é o suficiente para criar o clima necessário da obra.

 

                Elenize Dezgeniski


Durante uma hora e meia somos jogados em meio de contos totalmente insanos (ou não) e que retratam a insanidade que habita o cérebro do ser humano. Há momentos polêmicos, picantes, controversos. Temas como adultério, traição, incesto, morte, amor. Tudo isso e mais um pouco, com uma dose de sadismo e sarcasmo são o suficiente para fazer o público rir, mas também, permanecer tensa e pensante. Será que nós somos mesmo assim? A obra de Nelson transpõe com sinceridade a figura humana. Você pode se julgar diferente de tudo isso, mas nossa essência permanece a mesma.
 

 

                                          Elenize Dezgeniski

 

A direção é feita com precisão. Não sou um craque em se tratando de teatro, mas Edson Bueno escolheu bem seus atores, que dão um show no palco. Eles dão conta de vários personagens, expressam-se com muita eficiência, além de terem um quê de comédia em suas veias. Em algumas oportunidades, sai até piadinhas e improvisos. Em determinada cena, um dos personagens vai acender o cigarro e o outro diz: “Melhor não fazer isso, senão o Requião (atual governador do Paraná) vai vir aqui cobrar multa”, se referindo à lei que proíbe a fumaça de cigarro, charutos, etc. em locais fechados. A iluminação também é primordial na encenação. Os jogos de luzes são tão importantes quanto qualquer figura ali representada.

 

                                           Elenize Dezgeniski

 

Apesar de ser um retrato cru e agressivo, um verdadeiro julgamento da sociedade, Rodrigues dá uma lição de dramaturgia, através das belas performances e da ótima adaptação. A condição do ser humano é hedionda. Morrer de amor é utópico. Esta obra é cheia de profundidade, sentimento e sem pudor algum. Uma ótima forma de conquistar aquele que ainda encontra muita graça no teatro. É uma verdadeira loucura, uma piração, exatamente a vida como ela é de fato.

A peça continua em cartaz em Curitiba, no mesmo local, até próximo domingo, dia 5 de setembro. As sessões acontecem de quarta a sábado, às 21 horas e no domingo, às 19 horas.

 

A Vida Como Ela É - Nelson Rodrigues
Drama - 80 min

Direção e Adaptação:
Edson Bueno
Elenco:
Regina Bastos, Tiago Luz, Chris Gomes, Diego Marchioro, Martina Gallarza, Marcel Gritten

 


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