Com um toque de bizarrice e humor negro, o longa de André Klotzel (Memórias Póstumas e A Marvada Carne) apesar do nonsense, consegue tocar o público pela maneira singela de contar a história da relação de uma dona de casa humilde (Ana Lúcia Torre) e o seu velho aparelho liquidificador (narrado de forma impagável por Selton Melo) com quem compartilha seus anseios, alegrias e mais profundos segredos.
Isso mesmo, acredite se quiser, a personagem Elvira dialoga deliberadamente com o eletrodoméstico, dia e noite, com direito a respostas, perguntas e comentários do mesmo. Numa jogada do destino, ao trocar uma de suas peças o liquidificador passa de simples aparelho moedor a objeto dotado de consciência humana, daí o seu entendimento do mundo e das pessoas que o cercam.
“Os objetos dessa casa têm vida própria, funcionam quando querem”, afirma Elvira justificando seu relacionamento com o fiel aparelho. E é por essa relação de cumplicidade que os dois mantém guardado a sete chaves o segredo do misterioso sumiço do marido Onofre.
Além da dupla central de personagens, o filme conta ainda com ótimas atuações como a da vizinha que procura Elvira pra desabafar e contar seus casos, o carteiro intrometido que entrega a infidelidade de Onofre e o investigador do desaparecimento de Onofre, que desconfia da dona de casa como principal suspeita de um crime contra o marido, que dão o toque de comédia e ação ao enredo. Inteligente e com ótimas sacadas, o filme foge do convencional e surpreende, mostrando que o cinema brasileiro pode ter sim, comédias de qualidade.
Serviço
"Reflexões de um liquidificador" está em cartaz apenas em uma sala (Espaço Unibanco 3 - Rua Augusta, 1475 - São Paulo), com preços variando entre R$ 2 e R$ 16, conforme o horário. Além disso, todas as sessões contam com a exibição de um curta-metragem antes do filme. E as duas últimas exibições de cada dia trarão um show de comédia de stand up. O diretor pretende levar o longa para outras cidades e planeja também um lançamento diferenciado para cada local.