TEATRO

01/04/2010

Nas Quebradas de Plínio Marcos

Uma homenagem ao dramaturgo

Por Luis Fabiano Teixeira

Dia 19 de novembro de 2009 fez dez anos que perdemos um dos dramaturgos mais sensíveis à realidade brasileira: Plínio Marcos. Em Santos, sua cidade natal, várias homenagens marcaram o dia, mas nenhuma delas pode substituir a experiência única que é ler qualquer texto do Plínio. Principalmente pela abordagem original de suas histórias, indignação diante de um mundo cada vez mais cruel e resistência a toda forma de perseguição. As Histórias das Quebradas do Mundaréu (1976), selecionadas, organizadas e revisadas pela atriz Walderez de Barros, estão aí para provar que ele não só foi o precursor da “literatura marginal” no Brasil como também continua sendo o seu maior expoente.

Mesmo em se tratando de narrativas curtas, a linguagem do livro vai além do apuro técnico, é uma imersão sem volta ao universo codificado da marginalidade e dos menos favorecidos. Se por um lado o autor economiza palavras, por outro esbanja tipos dos mais variados: assaltantes, homossexuais, prostitutas, macumbeiros, sambistas, jogadores de futebol e toda sorte de trambiqueiros. Por isso a organização dos capítulos por tema é menos uma preocupação estética que de funcionalidade.

O distanciamento dessa elite que tem sempre lugar de destaque nas telenovelas e revistas é o que há em comum entre todos os personagens. Conscientes de que fazem parte de um “mundo-cão”, mas sem se revelarem na condição de vítimas, eles possuem suas próprias leis e se orgulham disso, como sugere o trecho de Mulher de Vagau Sabe das Coisas: “Enterra ele e esquece a gente, que fica tudo por isso mesmo. Mas, se tu for boca-mole como ele e der nossa ficha pros tiras, pode contar que a gente te manda também pro beleléu. Tchau”. Nas “quebradas do mundaréu” a morte passa a ser justificativa para qualquer fim, mas nem é preciso recomendar ao leitor estômago forte, já que, lamentavelmente, o derramamento gratuito de sangue já foi incorporado ao nosso cotidiano. E Plínio Marcos não inventou nada disso, apenas fez ecoar a existência dessa triste realidade.

Entre a dureza da maioria dos contos há espaço também para o riso, que pode vir frouxo ou não. Há, por exemplo, tiradas deliciosas em Dois Times Sem Jogo, onde dois times de futebol trocam ofícios repletos de “pérolas” gramaticais: “Nós vem por essa mal-traçada linha chamar vocês aí pra jogar no campo da gente uma partida de futebol no domingo, que a gente só joga nesse dia, que nos outro a gente trabalha”. Cada time responde de forma mais engraçada que o outro, chegando a um bate-boca protocolar hilariante. Alguma provocação à Censura? Provavelmente. “Fui perseguido pela Censura. Mas fiz por merecer” – declaração do autor que tinha fama de encrenqueiro.

Histórias das Quebradas do Mundaréu não pretende ser um guia prático para entender a nossa miséria, mas a torna visível sem nenhum disfarce. E cada um que tire as suas próprias conclusões, porém, sabendo que nunca poderemos resolvê-la, à distância.


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