CINEMA

16/02/2012 09:32:40

'A Dama de Ferro'se apoia na maior parte do tempo na doença de Margaret Thatcher

Maior pecado do longa é deixar de exaltar os melhores momentos de sua carreira

Por Rodrigo Ramos

Meryl Streep é a minha atriz favorita. Em sua geração, não existe outra que seja tão volúvel e competente quanto. Uma atriz que acredito ter condições de seguir seus passos é Kate Winslet, que já se mostrou capaz de encarar qualquer papel, entre a comédia, romance e – especialmente – drama. Enfim, nem sempre os filmes em que se encontram são estupendos, mas suas performances sempre são. Por isso Meryl é recordista em indicações ao Oscar (18 com a deste ano), mas apenas faturou duas delas, sem contar com este ano.

 

                           The Weinstein Company/divulgação

 

É meio sem graça vê-la sendo indicada quase todos os anos, mas isso é o resultado de duas variáveis: 1) especialmente nos últimos anos, faltam papéis fortes femininos (eles existem, mas não em um número tão expressivo); 2) Streep sempre faz por merecer. Como era de se esperar, em A Dama de Ferro, que estréia nesta sexta-feira nos cinemas brasileiros, Streep proporciona ao espectador mais uma atuação digna de premiação. O único problema é que o longa-metragem em que ela está não acompanha o seu talento.



                           The Weinstein Company/divulgação

 

A Dama de Ferro é uma biografia sobre a ex-primeira ministra do Reino Unido, Margaret Thatcher (Meryl Streep). Resumindo de forma preguiçosa, é isso. O peculiar é ver uma retratação tão íntima de uma figura que ainda está viva. Não que isso seja um problema, pois já houve cinebiografias de pessoas ainda vivas, como é o caso de Bob Dylan em Não Estou Lá. Mas certamente torna tudo um pouco mais polêmico, como foi o caso da realização do filme, onde o governo britânico não aceitou de bom grado.

 

                           The Weinstein Company/divulgação

 

De qualquer maneira, não é esse o problema do filme. A Dama de Ferro deveria ser uma ótima biografia, afinal de contas sua personagem principal é riquíssima de histórias e poderia proporcionar um longa-metragem, no mínimo, bom. Não é o que acontece, entretanto. A película dirigida por Phyllida Lloyd (de Mamma Mia!), ao invés de se focar na política e a luta de Thatcher para conquistar tudo o que conseguiu em sua incrível trajetória, acaba, por fim, se apoiando na maior parte do tempo na doença da baronesa, sua demência, além de suas constantes visões de seu falecido marido Denis Thatcher (Jim Broadbent), onde vivem conversando.

 

                           The Weinstein Company/divulgação

 

O foco pode ser um tanto delicado, ainda mais com a personagem estando viva e convivendo com o problema atualmente. Contudo, o maior pecado do longa é cair nessa ladainha e deixar de exaltar os melhores momentos da carreira dela. A primeira metade do filme é sonolenta, desprovida de ritmo e com flashbacks um tanto desconexos. Na mente de Thatcher, somos levados para o passado. Ou seja, não é algo linear, são apenas lembranças de momentos de sua vida. A maneira como elas são apresentadas na tela não funcionam como gostaria a diretora e isso causa aborrecimento na plateia.

 

                           The Weinstein Company/divulgação

 

As coisas melhoram, ligeiramente, quando vemos Thatcher conquistando o poder como a primeira mulher a assumir o posto de primeiro ministro britânico. As decisões que ela tomara iam contra muita gente e a perseverança dela era, de fato, admirável. Infelizmente, o longa-metragem não se apóia nesse fato. São apenas fragmentos de momentos em sua vida. E, na maior parte deles, envolve seu marido, amor eterno da personagem. É mais uma história do amor dela por Denis do que pela própria nação e sua luta contra o sistema que só aceitava homens na política e todas as coisas que vêm junto com isso, além de controvérsias políticas.

 

                           The Weinstein Company/divulgação

 

Há cenas em que o dramalhão toma conta e somente uma atriz com um talento inigualável para levar um filme desses nas costas. Meryl Streep, como de costume, entra uma performance formidável, acima da média. Ela capricha no sotaque, fica caracterizada igual a Thatcher e mescla momentos sensíveis com a determinação que a ex-primeira ministra inglesa possui. Nos últimos 10 anos, confesso que a atriz já teve papéis melhores (Dúvida, O Diabo Veste Prada, Adaptação), mas é inegável que o único brilho que A Dama de Ferro possui é sua presença ilustre, digna de premiação. Se levar o Oscar, vai ser mais pelas inúmeras indicações que já teve e deixou de levar pra casa a estatueta, do que por total mérito.

A Dama de Ferro é, afinal, uma biografia falha por deixar de focar no que houve de melhor em sua vida. Situações como a Guerra das Malvinas ganham destaque, mas não o tempo merecido em tela. Ao invés disso, Lloyd insiste em abordar o lado enfermo mais recente dela, o que é uma pena. Aqui se vai a chance de conhecermos melhor a história de uma mulher fascinante.

 

 

 

The Iron Lady
EUA / Inglaterra, 2011 – 105 min
Drama

Direção:
Phyllida Lloyd
Roteiro:
Abi Morgan
Elenco:
Meryl Streep, Jim Broadbent, Olivia Colman, Roger Allam, Susan Brown, Nick Dunning, Nicholas Farrell, Iain Glen, Richard E. Grant, Anthony Head, Harry Lloyd, Michael Maloney, Alexandra Roach, Pip Torrens, Julian Wadham, Angus Wright

Prêmios:
Globo de Ouro de melhor atriz drama (Meryl Streep)
BAFTA de melhor atriz (Meryl Streep) e melhor maquiagem

 

 

 

 

 

 


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