CINEMA

X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido

Vai ter futuro sim – e furo no roteiro também. Veja a resenha completa do filme.

Por Rodrigo Ramos
 
 
 
Em 2000, Bryan Singer foi o responsável por emplacar novamente os heróis de quadrinhos nas telonas com X-Men: O Filme. A partir daí o que era um mero filme, conseguiu fazer sucesso em todo o globo terrestre e então os super-heróis foram pipocando nos cinemas até se tornarem um gênero próprio. De lá pra cá, a franquia dos mutantes teve um total de seis longas-metragens, sendo uma trilogia, dois filmes solos de Wolverine e um prelúdio das histórias do Professor X e Magneto.
 
 
 
 
X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido é um marco interessante para o cinema. De alguma forma, uma franquia conseguiu se manter tempo o suficiente nas telas para não descartar totalmente o que se foi feito no passado. Quando se achava que iriam seguir em frente somente com o elenco de X-Men: Primeira Classe e um filme ou outro solo de Wolverine, a Fox resolveu que era o momento de unir os dois elencos a partir de uma HQ do acervo dos mutantes. Catorze anos separam o primeiro deste mais recente longa e para quem é fã da saga, é um fan service. Além do mais, a película é baseada em uma das melhores histórias dos quadrinhos.
 
 
 
 
Na narrativa desde longa, estamos num futuro destruído. Os mutantes são poucos. E os que restam, lutam pela sobrevivência, mas com os dias contados por conta dos Sentinelas, criados pelo Dr. Bolivar Trask (Peter Dinklage) para proteger os humanos dos seres com mutação genética. O problema é que tudo sai fora do controle e os Sentinelas acabam aniquilando até os humanos. A velha equipe, com o Professor Xavier (Patrick Stewart), Magneto (Ian McKellen), Homem de Gelo (Shawn Ashmore), Kitty Pryde (Ellen Page), Tempestade (Halle Berry) e Wolverine (Hugh Jackman), além de outros rostos inéditos, ainda resistem e tentam encontrar uma maneira de mudar a história. O modo é bem prático (ou não): Kitty Pryde pode mandar a consciência de Wolverine para o seu eu do passado e fazer com que ele, de um modo que não vale spoilar, convencer o Charles Xavier (James McAvoy) e o Erik Lehnsherr (Michael Fassbender) do passado em ajudá-lo a impedir que os tais Sentinelas ganhem vida.
 
 
A maior parte da narrativa se passa no passado, afinal esta é uma continuação direta de Primeira Classe, e como Jennifer Lawrence agora tem um Oscar no currículo, o foco tem que ser maior no período em que ela se encontra. Não vejo problema aí, pois o modo como o enredo se destrincha funciona bem. Este longa não é de forma alguma um novo Os Vingadores, onde a ação e as piadas são quase ininterruptas. Perdoem-me, mas de modo geral os filmes de X-Men, exceto o péssimo X-Men Origens: Wolverine, costumam trazer algum tema que reflete em nossa sociedade. Utilizando-se de pautas como amor (sim, ué), política, aceitação, preconceito e até família, a saga encontra agora no roteiro de Dias de Um Futuro Esquecido a intolerância como tema central. Funciona muito bem. O medo do desconhecido, o ódio do diferente, estes itens estão incluídos, servindo como justificativa para que os tais Sentinelas fossem criados.
 
 
Não é difícil fazer a conexão disso com o nosso cotidiano. Os X-Men são a metáfora perfeita para as minorias. Ainda há gente que pensa que, por exemplo, o homossexualismo (só porque termina com ismo não é doença, caso contrário minha profissão seria uma) é uma enfermidade e que existe uma cura gay. Ou até mesmo que os diferentes sejam exterminados ou que sejam inferiorizados. Se fosse possível identificar os excluídos da nossa sociedade como é possível achar os mutantes neste filme, tenho certeza que já teria deputado por aí armando projeto de lei para a criação dos tais Sentinelas.
 
 
 
O desenrolar toma o seu tempo, sem querer se apressar ao contar a estória. Ao dar espaço para seus personagens principais, Bryan Singer consegue tirar de seus atores as melhores performances possíveis, com destaque para os verdadeiros protagonistas McAvoy, Fassbender, Lawrence, Jackman e Dinklage, além das aparições de luxo de Stewart, McKellen e Page. Quem fica meio à toa no meio de tudo é Hank/Fera (Nicholas Hoult), talvez o único que o roteiro não dá conta de tornar relevante, a não ser por servir de alívio cômico na interação com Wolverine. A maior surpresa, no entanto, é a aparição de Mercúrio (Evan Peters). Personagem extremamente divertido e sua cena na prisão é fantástica.
 
 
 
 
É interessante notar que não existe exatamente um vilão propriamente dito em Dias de Um Futuro Esquecido, e apesar disso não há problemas em ritmo, tampouco a trama se torna monótona. O que importa, por incrível que pareça, são os personagens – os protagonistas mesmo, já que são diversos mutantes em cena, mas poucos realmente ganham destaque – além do próprio tema. Não é por isso, contudo, que o visual fica de lado. O início, com o planeta devastado, é belíssimo, lembrando o mundo destruído na trilogia Matrix. As cenas de ação são competentes, bem coreografadas e agrada os olhos.
 
 
 
 
Apesar de todos os pontos citados até então serem positivos, não é só isso que habita neste filme. Diria que, se julgado apenas como um filme isolado, Dias de Um Futuro Esquecido seria o melhor longa dos mutantes. No entanto, ele não é – e tampouco escondem o fato de que querem amarrar a trilogia original com esta nova. O que Brett Ratner fez em X-Men: O Confronto Final acabou inviabilizando o retorno de muita gente para uma possível continuação direta. Contudo, quiseram ligar um no outro. Daí que aparecem as incongruências. Por exemplo, se Magneto perdeu seus poderes com o mutante da cura, como ele os recuperou? Por que só ele foi capaz, e os demais não? O principal furo, todavia, é o retorno do Professor X. Ao final de O Confronto Final ele é estraçalhado e não sobra nada dele, retornando apenas dentro da consciência de um homem em coma. Certo. Partimos do princípio que isso seria possível, talvez com uma explicação coerente dentro do imaginário dos super-heróis e teorias loucas. Então chega neste longa-metragem e Xavier está inteirinho em folha, como se nada tivesse acontecido.
 
 
 
 
Veja bem, não é problema ele estar de volta. Se fosse um filme isolado da nova franquia, que simplesmente acontecesse sem tentar ligar com a trilogia original, beleza. A questão aqui é que ele retorna e não há nenhuma explicação, lógica ou incoerente, de seu retorno ao seu corpo físico e isso é muito grave dentro de uma esfera em que todos os longas da franquia estão de fato conectados. Falem o que quiser, mas a Marvel nos cinemas, como estúdio, faz questão de ligar decentemente as tramas de suas produções, sem deixar furos como este, o que é gravíssimo para a narrativa. Eu, como expectador e fã da franquia, ficaria satisfeito com qualquer desculpa que fosse. Porém, não houve a preocupação em ser coeso dentro do seu próprio universo.
 
 
 
O reboot causado ao fim de Dias de Um Futuro Esquecido é justamente para a Fox não precisar mais se incomodar com o que foi feito na primeira trilogia e nos dois filmes solos do Wolverine. No entanto, enquanto estava se aproveitando dessa linha temporal, poderia ter usado com um pouco mais de decência.
 
O desfecho do longa vai deixar um sorriso na cara dos fãs da franquia, com certeza, e abre caminho para a Fox fazer o que bem entender daqui pra frente, sem se preocupar com o que passou. X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido é um filmaço sim, mas seria imprudente não apontar que há sim erros nele e por conta disso não se torna o filme definitivo dos mutantes – X-Men 2 ePrimeira Classe ainda são melhores. Vamos ver se a partir de agora a franquia vai deixar de lado alguns dos erros e criará um futuro brilhante.
 
 
 
X-Men: Days of Future Past
EUA, 2014 – 132 min
Ação / Ficção
Direção:Bryan Singer
Roteiro: Simon Kinberg
Elenco:Hugh Jackman, James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Nicholas Hoult, Halle Berry, Ellen Page, Peter Dinklage, Ian McKellen, Patrick Stewart, Shawn Ashmore, Omar Sy, Evan Peters, Josh Helman, Daniel Cudmore, Bingbing Fan, Adan Canto
 
 




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