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CINEMA

Boyhood e a contemplação do tempo que passa

Por Gabriela Negro

Hoje eu finalmente consegui assistir ao filme “Boyhood – da Infância à Juventude” (Boyhood – 2014). Se houvesse algum prêmio no Oscar dedicado ao “achievment of the year”, Boyhood já teria arrematado a estatueta antes mesmo de ter sido lançado, afinal nas rodinhas hipsters só se falava da épica gravação que se estendeu ao longo de 12 anos idealizada por Richard Linklater.

 

 

Como a premissa já deixou bastante claro, em Boyhood Linklater quis discursar sobre o tempo. Não sei dizer se o diretor filmou um volume muito grande de cenas ou se ele teve uma extrema sensibilidade para notar o que seria definitivo e marcante sobre o período que ele estava retratando, mas Boyhood funciona como um grande scrapbook sobre a primeira década dos anos 2000. O Game Boy, as fantasias de Harry Potter, a fase Emo, tudo aquilo que vivemos ao crescer como a primeira geração do milênio está lá. Porém mais do que delinear fases, o diretor executa um exímio trabalho em demonstrar a força aterradora da passagem do tempo para varrer tudo isso, e encontra no envelhecimento natural dos rostos do elenco o elemento estético mais poderoso para isso.

Me ausentei da sala de cinema por alguns minutos no meio da longa exibição (a fita tem duração de 2 horas e 45 minutos) e quando retornei perguntei à minha amiga o que tinha acontecido. Ela me disse que “nada, ele só cresceu mais”. No fim percebi que com essa frase simples ela conseguiu sintetizar a essência do filme. Ou melhor, do anti-filme. Boyhood não é um épico cinematográfico, não é uma demonstração da magia do cinema para transformar o comum em extraordinário. Não possui grandes arroubos de emoção, um amor que vence tudo ou a superação de grandes traumas. Boyhood é a história de uma vida que não é minimamente orquestrada pelo destino, onde não existem coincidências milagrosas, timing perfeito e que, convenhamos, não é uma aventura extraordinária. Uma vida igual a minha e a sua. Uma vida onde tempo impõe uma superação natural dos problemas, não por uma mística curativa disseminada nos ditados populares, mas sim porque ele inevitavelmente empurra as pessoas para novas situações.

 

 

Linklater na verdade está retomando o que parece ser a sua visão da vida, de que ela não é um arranjo perfeito de acontecimentos que culminam em um grande final feliz planejado desde o início. Ela é sobre aceitar as situações da maneira como elas se apresentam e então tentar encontrar alternativas. Essa mesma visão de mundo aparece na trilogia que começou com “Antes do Amanhecer” e consagrou o diretor. Nela, dois jovens se apaixonam perdidamente e combinam de se reencontrar. Os planos falham e, mesmo sem nunca superar totalmente o sentimento despertado entre eles, diante de uma separação forçada ambos são obrigados a seguir com suas vidas de maneira independente. Em Boyhood essa tese fica explicitada para o expectador no diálogo entre Mason e seu pai, que afirma que não ficou junto com a mãe do menino porque ela não soube esperar pelo homem que ele se tornaria.

 

 

Pode-se então dizer que Boyhood é um filme de quase três horas em que não acontece absolutamente nada, mas isso seria um equívoco. O filme é uma grande oportunidade para se refletir sobre a verdade do cotidiano, que nada mais é do que uma sucessão de fases que parecem que vão durar pra sempre até que a próxima apareça. E o não conformismo com a simplicidade, que pode ter incomodado muitos expectadores (e possivelmente é uma das alavancas para as exorbitantes vendas de antidepressivos) nunca foi mais verdadeiro do que quando a mãe de Mason ao final do longa, quando o menino está saindo de casa para ir para a faculdade, afirma com pesar diante do fim: “eu achei que teria mais”.

 

 

Lançamento: 30 de outubro de 2014 (2h45min)

Dirigido por: Richard Linklater

Com: Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke

Gênero: Drama

Nacionalidade: EUA

 

 

 

 





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